sexta-feira, 27 de maio de 2011

Colecionando dias

Neste mundo alarido e ardiloso, há pessoas que possuem o certo hábito de colecionar coisas. Conheço alguns pândegos que colecionam livros; outros que colecionam moedas. Loucos que colecionam besouros. Tênues que colecionam borboletas. Eu coleciono dias.

Possuo uma enorme caixa feita de devaneios. Nela, há meus preciosos dias. Lá dentro, estão separados e existe de todos os tipos: Dias ensolarados onde as nuvens passeiam pelo céu, fazendo um carinho suave nas gaivotas; Dias cinzentos e tristes, onde lágrimas de chuva caem do céu, molhando toda a superfície da terra com suas mágoas. Há os dias mornos, onde um pôr-do-sol a tarde não lhe deixa nem triste, nem feliz. Apenas aquela sensação confortável de satisfação. Em um canto, escondidos, estão os dias que eu achei que nada teria solução. Escuros, mas pareciam à noite. Estes dias não valem muito à pena serem revistos; Apenas estão lá para que eu lembre que aconteceram.

E conforme o tempo frugal passa, eu vou colocando mais dias dentro da minha caixa. Nela, eles tornam-se perenes. Reviro-a, às vezes, procurando um dia específico, sem sucesso. É um dia que as nuvens parecem alegres, pelo céu ter sido pintado com as tonalidades de rosa e laranja; O vento sopra tranquilo e um par de olhos penetrantes me observa, com uma ternura inimaginável. Esse dia não existe. Mas, tem um lugar especial na caixa guardado exatamente para ele.

domingo, 13 de março de 2011

Amazonita.

Então é isso. Chutei a muralha de pedras, arranquei os punhais e ergui meu escudo. Os sussurros do vento me aconselharam que é só eu olhar além, que verei que não sou como um grão de açúcar. As gotas de chuva que me atiram, não me atigem mais. Sou uma turquesa. Ou talvez uma amazonita. Eu sou a senhora da minha vida e das minhas verdades e escolhas. Se o mundo tenta me empurrar para baixo, além do poço, chutando-me até o subsolo, eu localizo minha força e me levanto, tenha que empurrar ou passar por cima de quem for. Se lhe der um tapa, vire a outra face. Não. Me recuso a crer nisso. Me recuso a acreditar em todas essas mentiras que nos foram contadas desde que nascemos. Faço uma pilha com todas os livros infantis, que nos fazem pensar que alguém virá nos salvar. Pego todas as inverdades, toda a insegurança, todo o fracasso e coloco na pilha de madeiras, tacando querosene e fogo em seguida. Eu sou a senhora do meu futuro, e minha decisão não foi abaixar a cabeça para todos que tentam tampar meu sol. Minha decisão foi dançar por cima da cinza deles até o surgir das estrelas.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Blood Valentine.

O único som que podia ser ouvido no ambiente, era o barulho de seu coração mortificado. Eu estava sentado no chão, encostado na parede gélida com seu corpo em meu colo. Seus cabelos platinados espalhados pela minha perna, manchados de vermelho. Sua boca entreaberta e seus olhos semicerrados, com a aparência cansada, talvez pela luta. Deslizei meus dedos sujos pela sua pele cor de marfim, não sentindo nenhuma reação ao toque. "O que eu farei com todo esse amor?" Eu lhe perguntei, tendo o silêncio como resposta. O que eu farei com todo esse amor dentro de mim? Elevei minha cabeça e encarei o espelho à minha frente. O reflexo me apontava e gritava todos meus erros. Fechei os olhos e tampei meus ouvidos, me recusando a escutar tudo aquilo que eu já sabia. O eco do corpo dela batendo contra o chão me fez abrir os olhos instantâneamente. A peguei delicadamente e deitei-a novamente em meu colo. "Machucou-se, meu amor?" Eu perguntei, acariciando sua pele fúnebre. Ouvi ao longe barulhos de sirene e minutos depois a porta fora aberta bruscamente. Continuei sentado encarando seu rosto, até tê-la arrancada dos meus braços. Ela havia morrido e eu também. Morrido por dentro. Deixei-me ser levado, sem me rebelar, sem tentar me soltar. Apenas fui. E em um surto que não sei lhe denominar, eu me perguntei: "O que foi que eu fiz?"



"Oh my love, please don't cry. I'll wash my blood hands, and we'll start a new life."

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Verdades.

Pode se sentar. Quer uma bebida? Não bebe? Oh, tudo bem então. Eu sei que faz mal, menino. Mas, para alguns problemas na vida, isso aqui é uma das soluções. Não some com a dor completamente, mas a faz desaparecer momentaneamente. Qual a minha dor? Você não entenderia, menino. És tão novinho... Mas, minha dor é a angústia da vida. É o querer e não ter. É o sofrer pela agressão das lágrimas na pele áspera, você consegue me entender? É olhar para cada pôr-do-sol e não encontrar ali um motivo para viver. É olhar para a imensidão do céu noturno e não enxergar as estrelas. Não, isso não é poesia de bêbada desiludida. É a realidade que não queriam jogar na sua cara. Quando somos novos tudo parece ser revestido por veludo. Todo dia é de sol, os pássaros sobrevoam o céu sempre e o vento é apenas uma brisa. Conforme o tempo passa, você descobre que os dias mais são de chuvas do que de sol. Os pássaros se escodem e a ventania incessante agride seu rosto o deixando sem ar. Aproveite enquanto pode, menino. Aproveite a alegria da tua juventude, que de uma forma brusca a vida vai arrancá-la de tuas mãos em um piscar de olhos. É como comer a maçã e ser expulso do Éden. O quê? Não, você não pode evitar isto. Não é como se você pudesse escolher entre ir pelo caminho da direita, ou pelo caminho da esquerda. É algo que está fora do seu alcance. Você parece um pouco nervoso, quer um cigarro? Ah, não fuma? Eu sei que isso mata. Mas não pode causar mal a alguém que já está morto, não é? Sim, eu estou morta, menino. Morta por dentro. Sim, meu coração ainda bate. Apesar de algumas cicatrizes e arranhões causados por punhais da vida. Sou um cadáver. Um ser vivo sem alma. Você não quer ser assim? Você não tem escolha, menino... As decepções são grandes. Elas nos derrubam, nos chutam, e nos deixam atirados no chão. Você teria forças para levantar? Pois é, eu não tive. Não tenho mais. Me acostumei com o áspero asfalto. Daqui debaixo dá para ver as estrelas às vezes, sabia? Assim, bem às vezes mesmo. Um ponto ou outro qualquer, perdido no céu, parecendo pequenas pérolas. Porém com a facilidade que aparecem, se esvaem. Não, não há mais chances para mim, menino. Mas talvez haja algumas para você, quem sabe. Não posso te falar quais escolhas deve fazer para não passar por isto. Passar por isto é inevitável. O modo como vai encarar e superar é o que diferencia você das outras pessoas. Eu escolhi o meu, e cá estou. Sozinha, fúnebre e triste. Esperando pela cartada final deste grande jogo. Enfim, foi bom lhe conhecer, menino. Que a doçura dos teus olhos não seja roubada pelas atribulações da pérfida vida. Até logo.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Vazio.

Sentada defrente para a mesa, com uma garrafa de alguma bebida com teor alcoolico alto -como sempre, minha sutil preferência - mergulho meus olhos no conteúdo transparente do copo, enquanto uma pergunta que há meses ronda minha cabeça volta a importunar minha alma, arranhando-a devagar querendo respostas: "Qual é o problema?"
Balanço o copo devagar, vendo o gelo esbarrar no vidro e fazer um barulho quase inaudível. Viro o conteúdo todo de uma vez e balanço a cabeça, implorando para que esta pergunta seja solúvel e suma do meu pensamento. Mas ela não some. Qual é o meu problema? Eu sinceramente, lhes respondo que não sei. Escuto isso em todos os lugares onde vou. De todas as pessoas que conheço. Se elas não sabem, não fazem idéia, como eu saberei? Em um dia era eu, com minha pobre rotina frugal. Acordando todos os dias e sendo a mesma pessoa. Em outro dia, já não era mais a mesma. Aí surgiram as perguntas... As quais procuro respostas até hoje. Caminhei até o espelho e olhei meu reflexo: As mesmas roupas, o mesmo cabelo, os mesmo trejeitos. O que havia mudado, afinal? Havia mudado algo aqui dentro. Meus olhos não possuíam mais brilho algum. Eu estava oca. Vazia. Perguntei a garota do espelho se ela sabia porque eu estava assim e minha resposta foi o silêncio. O silêncio que gritava dentro de mim. O nada que corria pelas minhas veias e chegava até o meu órgão vital, dilapidado. Batendo devagar, quase parando. E aquela enorme sensação que invadia meu estômago e se espalhava por todo meu corpo em segundos? Sumiu. Morreu, desapareceu. Você não flui mais no meu sangue. Na minha cabeça. E foi isso que sobrou de mim, sem você: um corpo vazio. Procurando sempre por algo que cubra o buraco. Bebidas, luxúria, diversão. Mas nada tampa. Nada é capaz de suprir a fome que eu sinto de você. E virando mais uma vez a garrafa, encarando um ponto qualquer daquela sala empoeirada e incólume eu me pergunto: Qual é o meu problema?

domingo, 26 de dezembro de 2010

Conto de um jardim.

"Você ouviu falar sobre a moça?", brandou o beija-flor rapidamente enquanto estava de frente para a margarida, roubando-lhe beijos floris. A mesma negou delicadamente, balançando todas suas pétalas douradas como os raios de sol. Direcionou seu olhar para um ponto do jardim, onde estava a moça sentada com suas vestes longas, os cabelos compridos e negros. O olhar perdido no céu. Uma estrela egocêntrica soltou uma risada, exclamando aos quatro ventos que ela a observava. "Claro que não", o beija-flor - que de muito sabia - rapidamente se prontificou a falar - "ela observa o céu, pois o mesmo a lembra do seu olhar."
"Olhar de quem?", a margarida perguntou e a estrela direcionou toda sua atenção ao beija-flor, juntamente com a coruja, as outras flores e os grilos que habitavam o jardim. "Do rapaz dos olhos castanhos. Ele está longe agora. Quer dizer, sempre esteve. Eu ouvi por aí, que a moça o amou assim que o viu. Tinham tanto em comum... Porém o rapaz não achava isso. Apesar de gostar muito da moça, ela não era o ideal. Então, todos os dias, ela observa o céu, a procura da estrela mais iluminada.."
"Eu lhe falei, lhe falei que ela olhava para mim", a estrela egocêntrica falou com seu tom de voz superior, cortando o beija-flor que de nada disso gostou.
"Não é por sua causa. Ela procura a estrela mais iluminada, para fazer sua prece sincera, de que algum dia, quem sabe, o rapaz se apaixone por ela." Disse o beija-flor, com um tom de voz suave. E então parecia que o tempo parara. O vento não soprava, as nuvens não passeavam pelo céu, os grilos emudeceram e os pássaros pararam de voar. Todos juntos observavam a moça. O seu olhar era triste, perdido, estava longe. Seu semblante era abatido e ela permanecia quieta. Quem olhasse de longe, veria a cena como uma pintura de uma tela antiga.
"E se ela nunca ficar com o rapaz?", a coruja - que era muito curiosa - perguntou. Todos a encararam e o silêncio habitara aquela cena durante alguns segundos.
"Compraremos uma agulha para ela." , a margarida falara e todos a observaram dessa vez. O beija-flor, que não estava entendendo, resolveu se pronunciar. "Mas, porque uma agulha?" A margarida suspirou durante alguns segundos e observou um raio de sol tocar o rosto da moça, tentando confortá-la. "Para seu coração ela costurar."

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Desapego.

Eu descobri esses dias, no meio de algum sôfrego devaneio enquanto montava a árvore de natal - apesar do clima natalino não estar me dominando no momento - que não sou uma boa pessoa e tenho uma péssima mania. Assim que coloquei a estrela prateada no topo da árvore, sentei-me no chão e passei a observá-la, sentindo todas suas cores sendo absorvidas pelos meus olhos de calendoscópio, enquanto o brilho das luzes que piscavam sem parar me faziam sentir uma pontada de felicidade que só o natal conseguia. Mergulhei novamente em pensamentos. Não sou uma boa pessoa, repeti para mim mesma. Quem sabe assim, repetindo toda hora, de um jeito meio tresloucado, eu me convencia do contrário? E tudo isso se devia ao fato de eu ter a mania de substituir pessoas. São como produtos que tem um tempo de validade. Elas são perfeitamente estáveis e alegres para mim, mas depois de um certo tempo, acontece algo estranho. O doce enjoa, empurro o prato, não quero mais. E perdem a validade... E com isso, eu sinto um enorme vazio dentro de mim. Algo como a imensidão de um céu noturno, só que sem as estrelas. E com isso, eu as substituo por outras pessoas que irão ocupar esse vazio. Preencher o espaço, tampar o buraco que fica dentro de mim. Não queria que fosse assim. Sei o valor que cada um tem, mas simplesmente não posso evitar. Elas se estragam com o tempo. E eu não me sinto triste, nem feliz, nem mais nada. É oco, vazio. Só. E em uma última tentativa - embora inútil - escrevo uma carta para o Noel, deixando-a ao pé da árvore, para ser vista assim que ele adentrar meu lar. Quem sabe ele lendo, e entendendo, poupe-me desse nada que é viver a esperar quando será o próximo momento - e qual será a pessoa - que eu irei me desapegar.